Rastilho Festival 3

Monday, January 23, 2006

Assacinicos - Ninguém Sabe Mas...Tenho Medo!

Uma das bandas mais incompreendidas da música portuguesa está de regresso a Leiria onde a prosa cantada em português tem lugar marcado com o Rock. A música dos Assacinicos nunca foi fácil de digerir, nunca! Mas é aqui que reside o seu encanto: escutarmos as palavras vocalizadas por António Cova na língua de Camões, faz-nos ficar perplexos. Em Leiria os Assacinicos serão a primeira banda a subir ao palco num concerto onde se poderão ouvir algumas músicas do segundo album da banda a ser editado em 2006.


“Originalidade s.f. (…) qualidade de inusitado, do que não foi ainda imaginado, dito, feito etc.; inovação, singularidade (…)”, assim reza o Tomo V do Dicionário Houaiss da Literatura Portuguesa. Conseguiremos, pois, descortinar elementos singulares na produção artística contemporânea? Sem dúvida, ainda que, em geral, os mesmos assentem na fusão de estéticas, liguagens, técnicas e ambiências próprias de áreas (ou subáreas) terceiras, daí resultando o factor originalidade. É este o preceito inerente à obra dos Assacínicos. «Ninguém Sabe Mas Tenho Medo... » resulta da exemplar associação de linguagens intimamente relacionadas – o teatro (magnífica, a expressividade do vocalista/líder António Cova), a literatura (na vertente poética dos textos) e, obviamente, a música (um híbrido entre Dark Rock e Metal Alternativo, edificado sobre as harmonias, estruturas e imagética próprias da Música Popular Portuguesa mais interventiva). Amargura, obssessão, luxúria e crime povoam o imaginário lírico, baseado na recolha e transcrição de textos publicados na imprensa (os versos de Sam Shepard, em «Vejo-te», são a excepção). Numa interpretação só reservada aos génios, o cantor envolve a música em impressionantes cargas dramáticas, tão teatrais quanto se possa imaginar (na sua magnificiência, «Chávenas Quentes» parece ter sido escrita para uma qualquer peça). A colocação de voz, milimetricamente estudada, e a dicção, irrepreensível, tornam ainda mais verosímil a assunção das personagens encarnadas em cada tema. Ora cantado, ora declamado ou gutural, o versátil registo de Cova soa a um cruzamento único entre o tom grave e introspectivo de Adolfo Luxúria Canibal (dos Mão Morta) e o de José Mário Branco e Zeca Afonso, dois dos mais influentes cantores de intervenção que nos anos 60 e 70 proliferaram em Portugal na luta contra o regime do Estado Novo. «O Meu Receio/Não Posso», «Querida Amiga Ensina-me», «As Miúdas Dão-se Bem» e «A História dos Cavalos» não deixam margem para dúvidas. Mas o Fado (em «Je Ne Comprend Pas Ce Que Tu Dis») e a herança árabe de «Vejo-te» envolvem o todo numa aura de inigualável portugalidade. Ninguém Sabe Mas tenho Medo... é, tão só, uma das mais fabulosas peças de teatro musicadas que algumas vez nos foram dadas a ouvir. Não é de fácil audição, contudo.
Porque a música do grupo não aceita meio-termos: ou se ama ou se odeia. Pelo que nos diz respeito, este ficará nos anais do Rock português como um dos melhores álbuns produzidos em 2004."

2 Comments:

At 3:42 PM, Blogger Ricardo said...

Da-lhe Toino Cova! Boa onda sim senhor.

 
At 8:02 AM, Blogger Ed said...

Texto publicado no Metal Incandescente e no MetalOpenMind. http://metalincandescente.blogspot.com/2005_02_27_metalincandescente_archive.html

 

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